Um fato é que: a tecnologia, quando bem utilizada, pode ser uma grande aliada na promoção da acessibilidade. A chegada dos aplicativos de transporte, como Uber e 99, revolucionou a forma como nos locomovemos. Com isso, com alguns cliques, um carro chega ao seu encontro. Essa facilidade trouxe uma independência inédita para muitas pessoas, mas será que essa revolução incluiu todo mundo?
Para uma pessoa com deficiência (PcD), o simples ato de pedir um carro pode ser uma loteria. A promessa de autonomia muitas vezes esbarra na realidade da frota: a falta de veículos adaptados e, por vezes, a falta de preparo para lidar com necessidades específicas.
Neste 30 de janeiro, Dia do Taxista, é um momento oportuno para refletir sobre a evolução do transporte urbano. Se antes a dificuldade estava em encontrar um táxi acessível, hoje o desafio se transferiu para o mundo digital, equilibrando os avanços e frustrações da era dos aplicativos.
O que os aplicativos de corrida oferecem?
No papel, as principais plataformas têm categorias ou filtros voltados para a acessibilidade. A intenção é nobre: permitir que o usuário com deficiência solicite um veículo mais adequado ou um motorista com treinamento específico.
O problema é que, na prática, essas opções são limitadas e variam drasticamente de cidade para cidade.
O caso da Uber (Uber Assist): O que é?
Em primeiro lugar, a Uber oferece o “Uber Assist” (ou “Access” em alguns mercados). A proposta não é, na maioria das vezes, um carro com rampa ou elevador. A categoria foca em motoristas parceiros que receberam um treinamento específico para:
- Auxiliar pessoas a se locomoverem da porta de casa até o carro.
- Ajudar a dobrar e guardar cadeiras de rodas, andadores ou patinetes.
- Dar suporte a pessoas com deficiência visual ou auditiva.
A frustração: O Uber Assist é focado em pessoas com mobilidade reduzida, mas que ainda conseguem se transferir da cadeira de rodas (dobrável) para o banco do carro. Se o usuário possui uma cadeira de rodas motorizada e não dobrável, a opção se torna inútil.
O caso da 99 (99Acessível)
Em segundo lugar, a 99 possui a categoria “99Acessível”. Assim como a concorrente, o foco está em motoristas parceiros treinados para oferecer um auxílio extra, e não em uma frota de veículos fisicamente adaptados.
A frustração: A disponibilidade é o maior problema. Mesmo em grandes capitais, ao selecionar a opção, é comum se deparar com a mensagem “nenhum carro disponível” ou tempos de espera que inviabilizam o uso do serviço.
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Qual a diferença entre “acessibilidade” e “veículo adaptado”?
Este é o ponto central do problema: os aplicativos confundem auxílio com acessibilidade arquitetônica.
Um motorista treinado é excelente para uma pessoa idosa ou alguém com uma deficiência visual. No entanto, para um cadeirante que não consegue deixar sua cadeira, a única solução real é um veículo adaptado, geralmente uma van ou “multivan” (como Doblòs ou Spin) equipada com rampa de acesso e espaço interno para que a pessoa embarque e viaje com segurança dentro da própria cadeira.
Essa adaptação é cara e, como os motoristas usam seus próprios veículos, torna-se inviável para eles. O resultado é que essa demanda, essencial para a autonomia, fica completamente descoberta pelos aplicativos.
É o Dia do Taxista, e onde está o Táxi Acessível?
Curiosamente, no Dia do Taxista, lembramos que a solução para esse problema já existe, ainda que de forma analógica. Muitas prefeituras mantêm (ou mantinham) frotas de Táxis Acessíveis especiais, exatamente com os veículos adaptados que faltam nos aplicativos.
Eles possuem o veículo correto, com adaptações certificadas. A frustração (dos táxis): São poucos, caros e, o pior, não têm a conveniência do aplicativo. Muitas vezes, é preciso ligar, agendar com horas (ou dias) de antecedência e torcer pela disponibilidade.
Os aplicativos trouxeram a conveniência sob demanda, mas eliminaram a adaptação. Os táxis especiais têm a adaptação, mas não têm a conveniência. O usuário PcD ficou preso no meio.
Acessibilidade deve ser prioritária
A frustração de abrir um aplicativo e não encontrar uma opção viável de transporte é uma barreira diária. A Lei Brasileira de Inclusão (LBI) garante o direito à mobilidade e ao transporte como pilar da vida em sociedade.
Plataformas de tecnologia que intermedeiam um serviço público, como o transporte, precisam ser cobradas para oferecer soluções reais. Isso pode incluir:
- Incentivos para motoristas com veículos adaptados.
- Parcerias com cooperativas de táxis acessíveis.
- Integrar, de fato, a acessibilidade como parte central do serviço, e não como um filtro que quase sempre volta vazio.
Enquanto a tecnologia não olhar para as necessidades reais de todos os usuários, ela será apenas uma ferramenta de conveniência para alguns, e uma fonte de frustração para muitos.
