Quando o assunto é acessibilidade, pensamos imediatamente em rampas, pisos táteis ou adaptações para quem usa cadeiras de rodas. No entanto, há outros problemas que permeiam o tema da inclusão, como, por exemplo, a questão das necessidades sanitárias para pessoas ostomizadas.
A ostomia altera o modo como uma pessoa elimina urina ou fezes, exigindo o uso de bolsa coletora acoplada ao corpo. Para essas pessoas, um banheiro comum muitas vezes não basta. Pelo contrário. Um ambiente não preparado pode tornar o uso do espaço indigno.
Apesar de avanços recentes na sociedade civil, a arquitetura atual de muitos edifícios públicos e privados ainda ignora essa realidade. Quando o local não está adaptado, a autonomia, a dignidade e até o direito à privacidade de quem passou por essa cirurgia ficam comprometidos.
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O que significa ser ostomizado
Ser ostomizado significa conviver com uma abertura no abdômen, chamada estoma, por onde saem fezes ou urina, que são coletadas em bolsas especiais. Muitas dessas pessoas dependem dessas bolsinhas de forma permanente. Um banheiro convencional, com vaso sanitário no nível do chão, não garante as condições mínimas de conforto para quem precisa esvaziar ou trocar a bolsa coletora.
Basicamente, a ausência de uma estrutura adicional poderá fazer com que a pessoa tenha que se agachar, ajoelhar ou improvisar (como usar a pia), expondo a si mesmo a um constrangimento desnecessário e até mesmo risco de acidentes.
Como deveria ser um banheiro adequado para ostomizados
Para atender devidamente às necessidades desse público, o banheiro precisa ir além da acessibilidade “comum”. Algumas adaptações essenciais incluem:
- Vaso sanitário instalado a uma altura elevada.
- Espaço frontal livre suficiente para que a pessoa manuseie a bolsa coletora sem restrições.
- Lavatório próximo ao vaso ou uma pia acessível dentro da cabine.
- Barras de apoio, suporte para objetos e espelho posicionado de forma estratégica.
- Lixeira adequada para descarte de materiais (como papel higiênico ou resíduos), e ambiente com ventilação.

Alguns exemplos de boas práticas e o que o Brasil ainda precisa
Existem iniciativas que já reconhecem essa necessidade e atuam para garantir banheiros devidamente adaptados. Um exemplo é o Hospital de Clínicas da Unicamp, que em 2020 reformou sanitários para uso exclusivo de ostomizados e pacientes com mobilidade reduzida, com sistema de exaustão e conforme normas de acessibilidade.
Em âmbito legislativo, há propostas e leis municipais que exigem sanitários adaptados para ostomizados em edifícios públicos e privados de uso coletivo. Isso inclui rodoviárias, aeroportos, shoppings, centros culturais, hospitais, igrejas, etc.
No entanto, a realidade ainda segue muito desigual. O número de espaços adaptados continua pequeno, e muitas pessoas ostomizadas convivem com a falta de infraestrutura correta. Isso, por sua vez, limita sua mobilidade, participação social e acesso a serviços.
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Por que arquitetos, gestores e sociedade precisam priorizar essa causa
De acordo com o Ministério da Saúde, estima-se que, no Brasil, sejam mais de 400 mil estomizados. Isso quer dizer que incluir sanitários para ostomizados é questão de dignidade, cidadania e direito básico para quase meio milhão de brasileiros. Quando projetos arquitetônicos não contemplam essas necessidades, uma larga parte da população é ativamente excluída do convívio social.
Além disso, é válido apontar que adaptar banheiros exige, de forma geral, pouco investimento. A estrutura é relativamente simples, não demanda tecnologia sofisticada nem altos custos. Em muitos casos, a adaptação pode ser feita com alterações de altura do vaso, instalação de barras, suporte e ducha, sem que seja preciso reformar todo o prédio.
Por fim, não podemos esquecer que o Decreto 5.296, de 02 de dezembro de 2004, reconhece a ostomia como deficiência física. Em outras palavras, pessoas ostomizadas gozam dos mesmos benefícios assegurados por lei para qualquer outro tipo de deficiência. Isso, é claro, inclui espaços dignos.
Transformar o banheiro em espaço de inclusão
Banheiros para ostomizados são uma necessidade real, urgente e invisível para muitos. É fundamental que gestores públicos e privados, arquitetos e urbanistas reconheçam essa urgência. Está mais do que na hora de banheiros adaptados deixarem de ser exceção e se tornarem a regra.
Em última análise, projetar banheiros para ostomizados é um convite para repensarmos a forma como enxergamos a diversidade e suas nuances. Quando incluímos essas necessidades no centro do planejamento, reconhecemos que a arquitetura tem um papel direto na qualidade de vida de todo cidadão.