A deficiência ainda costuma ser associada, de forma equivocada, apenas a condições presentes desde o nascimento. No entanto, milhares de pessoas passam a conviver com limitações físicas, sensoriais ou cognitivas ao longo da vida, seja em decorrência de acidentes, doenças ou tratamentos de saúde. Nesses casos, a adaptação passa a fazer parte da rotina de maneira repentina.
Recentemente, uma magistrada do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) compartilhou sua experiência após adquirir uma deficiência. O relato da juíza Marina Carlos França trouxe à tona uma discussão importante: a inclusão não depende apenas do esforço individual de quem enfrenta essa nova realidade. Ela também exige ambientes preparados para acolher diferentes necessidades.
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A deficiência adquirida e a reconstrução da rotina
Quando uma pessoa adquire uma deficiência, não é apenas sua condição física que muda. Muitas atividades cotidianas precisam ser reaprendidas ou reorganizadas.
Deslocamentos, tarefas domésticas e atividades profissionais passam por um processo de adaptação. A magistrada, aliás, chegou a declarar que, após desenvolver a Síndrome de Stevens-Johnson (SSJ), “pequenos degraus, superfícies irregulares e falta de sinalização no piso” já a fizeram desequilibrar e cair, conforme veiculado pelo TJMT.
Em muitos casos, o maior desafio não está necessariamente na limitação em si, mas sim nas barreiras existentes ao redor. Escadas sem alternativas acessíveis, mobiliário inadequado, sistemas pouco inclusivos e falta de preparo institucional acabam dificultando ainda mais esse processo.
Por isso, vale destacar que a deficiência não pode ser analisada apenas sob uma perspectiva médica. É preciso observar também as barreiras presentes na sociedade que restringem a autonomia das pessoas.
O ambiente de trabalho também precisa se adaptar
Uma das áreas mais impactadas pela deficiência adquirida costuma ser a vida profissional. Muitas pessoas enfrentam inseguranças sobre a continuidade da carreira, especialmente quando trabalham em ambientes que não foram planejados para receber diferentes perfis de usuários.
Nesse contexto, a acessibilidade exerce papel decisivo. Algumas medidas podem fazer grande diferença no processo de permanência e inclusão profissional. Entre elas, podemos citar:
- Mesas e estações de trabalho adaptadas.
- Softwares e tecnologias assistivas.
- Leitores de tela para pessoas com deficiência visual.
- Rotas acessíveis dentro dos prédios.
- Elevadores e sinalização adequada.
- Flexibilização de algumas rotinas quando necessário.
Acessibilidade atitudinal: uma barreira muitas vezes invisível
Nem todas as dificuldades são físicas. Pessoas que adquirem uma deficiência frequentemente relatam mudanças na forma como passam a ser tratadas por colegas, gestores e até mesmo familiares. Em alguns casos, surgem atitudes de superproteção excessiva. Em outros, há dúvidas injustificadas sobre a capacidade profissional daquele indivíduo.
Esse tipo de comportamento faz parte do que especialistas chamam de barreiras atitudinais. A inclusão verdadeira depende também da forma como a sociedade enxerga a deficiência. Competência, experiência e conhecimento não desaparecem após um diagnóstico ou uma mudança de condição física.

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A importância da permanência, e não apenas do acesso
Nos debates sobre acessibilidade, é comum que a atenção esteja concentrada no acesso inicial aos espaços. No entanto, inclusão também significa garantir condições adequadas de permanência. Isso vale para ambientes corporativos, instituições públicas, escolas e universidades.
Em outras palavras, não basta somente permitir que uma pessoa entre em determinado local. É necessário assegurar que ela consiga circular, trabalhar, participar de atividades e exercer seus direitos em plena igualdade de condições.
Essa discussão tem ganhado cada vez mais espaço dentro das instituições públicas. O próprio Tribunal de Justiça de Mato Grosso vem promovendo ações voltadas à acessibilidade, inclusão e identificação de barreiras enfrentadas por pessoas com deficiência no ambiente institucional.
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Inclusão também significa estar preparado para as mudanças da vida
A história da magistrada Marina ajuda a ampliar o debate sobre deficiência adquirida, um tema que ainda recebe pouca atenção. Afinal, qualquer pessoa pode enfrentar mudanças significativas de mobilidade, visão, audição ou funcionalidade ao longo da vida.
Por isso, pensar acessibilidade não é criar soluções para um grupo específico. É construir ambientes capazes de acolher diferentes trajetórias humanas. Quando instituições se tornam mais acessíveis, elas também viram espaços mais seguros, humanos e preparados para a diversidade que faz parte da sociedade.