Escritórios modernos: open space é realmente acessível?

Nos últimos anos, o modelo de escritório open space se tornou bastante popular. Os ambientes amplos, sem divisórias, com mesas compartilhadas e áreas de convivência visam maior colaboração, criatividade e integração entre equipes. No entanto, por trás dessa estética moderna e aparentemente democrática, surge uma pergunta essencial: o open space é realmente acessível para todas as pessoas?

É importante analisarmos a questão sob a ótica da acessibilidade, especialmente da acessibilidade sensorial e cognitiva. A verdade é que, para muitas pessoas com deficiência, transtornos neurodivergentes ou sensibilidades sensoriais, esse tipo de ambiente pode se tornar excludente, desgastante e até inviável para o trabalho cotidiano.

Escritório estilo open space
Imagem: Freepik
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Sobre o ambiente open space e seus objetivos

O conceito de open space busca, entre outras coisas, quebrar hierarquias, facilitar a comunicação entre o corpo de colaboradores e estimular o trabalho em equipe. Na teoria, parece uma ideia interessante. Na prática, porém, o que se observa é a criação de novos obstáculos, menos visíveis, mas igualmente impactantes.

Isso inclui, por exemplo, ruídos constantes e mais altos, conversas paralelas, telefones tocando, iluminação intensa e circulação contínua de pessoas, que se tornam frequentes nesses espaços abertos. Para quem depende de concentração e previsibilidade, essas são características que podem comprometer a produtividade e o bem-estar.

Privacidade sensorial: uma dimensão ignorada

A acessibilidade no trabalho costuma ser associada a rampas, elevadores e mobiliário adaptado. No entanto, a privacidade sensorial ainda é amplamente negligenciada no design corporativo. Esse termo refere-se, basicamente, à possibilidade de controlar estímulos como som, luz e movimento.

Pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH, ansiedade, enxaqueca crônica, deficiência auditiva ou baixa visão, por exemplo, podem sofrer impactos diretos em ambientes excessivamente estimulantes. A falta de divisórias acústicas ou iluminação ajustável transforma o local em uma fonte constante de estresse. Nesse contexto, o open space passa a favorecer apenas um perfil específico de trabalhador.

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Quando o design exclui sem perceber: é preciso prestar atenção

Um dos problemas centrais do open space é que a exclusão que ele gera raramente é intencional. Muitas empresas, aliás, adotam esse modelo acreditando estar alinhadas às tendências contemporâneas, sem levar em consideração a diversidade de corpos, mentes e formas de trabalhar.

Ignorar necessidades sensoriais pode gerar fadiga, queda de desempenho e até a exclusão silenciosa de profissionais que não conseguem se adaptar bem. Isso contradiz diretamente qualquer princípio de diversidade, equidade e inclusão que muitas organizações afirmam defender.

É necessário ressaltar que acessibilidade nunca pode se resumir a permitir a presença física no espaço. Devemos, antes de mais nada, garantir condições reais de permanência e participação plena de todas as pessoas, com conforto e dignidade.

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Escritório estilo open space
Imagem: StartupStockPhotos/Pixabay

Alternativas ao open space tradicional

Questionar o open space não quer dizer defender o retorno a escritórios rígidos e duramente hierarquizados. Pelo contrário. A solução passa por pensar ambientes mais flexíveis e diversos, capazes de atender diferentes perfis de trabalhadores de forma justa.

Existem algumas alternativas possíveis para as empresas que pensam em adotar um estilo mais inclusivo. Exemplos incluem:

  • Áreas silenciosas ou salas de foco especiais para atividades que exigem maior concentração

  • Divisórias móveis ou painéis acústicos estrategicamente posicionados

  • Iluminação regulável, com opções de luz natural para quem assim preferir
  • Possibilidade de escolha do local de trabalho dentro do escritório, além de políticas de trabalho remoto ou híbrido

Vale ainda consultar os próprios funcionários da empresa, a fim de obter um feedback direto e sugestões específicas de melhorias ou mudanças pontuais.

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É hora de repensar o que entendemos por “moderno”

Por fim, vale a reflexão: o que torna um escritório verdadeiramente moderno? Será a estética minimalista e os grandes salões abertos ou a capacidade de acolher diferentes formas de existir e produzir, pensando com cidadania e compreensão?

É preciso entender, mais cedo ou mais tarde, que inclusão não acontece quando todos são obrigados a se adaptar ao mesmo modelo, mas quando o espaço se adapta às pessoas. Somente assim será possível construir ambientes de trabalho mais justos, humanos e, de fato, acessíveis.